Governança: aprendendo com a Fórmula 1

Ok, a Fórmula 1 talvez não seja o melhor exemplo... Mas o recente caso de Lewis Hamilton e os piercings permite aprender como gerenciar regras e suas violações.


Um dos aspectos mais importantes da governança é a maneira como uma organização define e aplica suas regras. As regras ou procedimentos que existem para prevenir riscos maiores, como por exemplo o risco de acidentes, devem ser objeto de grandes cuidados. Mas o que fazer quando uma regra não está sendo cumprida? Um caso recente envolvendo Lewis Hamilton e a Fórmula 1 é uma interessante oportunidade para discutirmos as dificuldades que muitas organizações enfrentam cotidianamente. 


Em 2005 foi incluída ao longuíssimo regulamento da Federação Internacional de Automobilismo uma regra proibindo o uso de piercings e colares pelos pilotos, durante as competições. A regra é aplicável em todos os campeonatos organizados pela FIA, a começar pelo campeonato de Fórmula 1, e seu objetivo é a preservação da segurança dos pilotos. O mesmo capítulo do regulamento define, por exemplo, as especificações dos capacetes e das roupas resistentes a chamas que eles devem usar, os testes médicos a que devem se submeter, e o que deve ser feito em caso de pilotos com mobilidade reduzida.


Em 2007 Lewis Hamilton e Sebastian Vettel começaram a disputar a Fórmula 1. Os dois venceram onze dos quinze campeonatos disputados desde então, e dez dos últimos doze. Uma dominância inédita no esporte. O impacto de suas ações e declarações é enorme, e ambos têm usado este poder para promover diferentes causas, principalmente ligadas à Inclusão, Sustentabilidade e Direitos Humanos.


Em 2021 um piloto diferente conquistou o campeonato: Max Verstappen. A decisão do campeonato ocorreu nas últimas voltas da última corrida da temporada, etapa que Hamilton e Verstappen começaram rigorosamente empatados. O campeonato terminou coberto de controvérsia. O diretor de provas aplicou um item do regulamento esportivo de uma maneira que teria prejudicado o piloto inglês. A equipe de Hamilton apresentou um protesto, depois retirado em um acordo que resultou na demissão do diretor de prova, na revisão de pontos confusos do regulamento e no anúncio de uma postura mais clara e rígida em sua aplicação. 


Coincidentemente, um novo presidente da FIA estava começando seu mandato e anunciou seu apoio a uma aplicação mais consistente dos regulamentos. Ele modificou a organização da direção de provas e os novos diretores começaram seu trabalho. Eles identificaram regulamentos que não vinham sendo cumpridos com rigor, entre os quais o regulamento de 2005 sobre piercings e correntes. A regra foi tema de um alerta na véspera do terceiro GP da temporada de 2022.


Lewis Hamilton é conhecido por usar piercings, e o reforço da regra que vinha sendo ignorada foi imediatamente interpretado por parte do público como perseguição. O piloto, em vez de reconhecer que vinha desrespeitando um regulamento que já existia quando ele chegou (sem piercings) à categoria, questionou o regulamento e declarou que não removeria seus piercings. Seu argumento principal é de que a FIA deveria se preocupar com temas mais importantes. A FIA insistiu na importância da regra, dando tempo para que os pilotos se adequassem. Hamilton ganhou o apoio de Sebastian Vettel na mais recente etapa, em Miami. Como o mesmo regulamento diz que as características anti-chamas das roupas de baixo do piloto podem ser inspecionadas, Vettel vestiu uma cueca por cima do macacão. E Hamilton correu com seus piercings.


No momento em que escrevo este artigo, vive-se nas redes sociais uma intensa discussão sobre o mérito do regulamento, e se há perseguição a Hamilton pela sua origem ou pela cor da sua pele. Várias outras decisões da FIA no passado são questionadas (inclusive, novamente, a decisão do último campeonato). É como se a mudança de cultura pretendida pelo presidente da FIA não existisse. 


Na escalada de declarações e de ultimatos que se seguiram, um dos lados terá que ceder. Se o piloto recuar, seus fãs provavelmente aumentarão o tom das críticas que fazem à federação desde a decisão do último campeonato. E se a FIA recuar, estará abrindo mão do seu mais básico poder de organismo regulador: quais regras poderiam ser questionadas por outros pilotos? Ainda que seja possível discutir a atuação da FIA, a evolução na segurança do esporte é inegável, e muitas mudanças ocorreram contra a vontade dos pilotos e das equipes.


Transportando a discussão do ambiente da Fórmula 1 para o mundo empresarial, este caso nos ensina uma série de boas práticas sobre como as regras devem ser definidas, gerenciadas, controladas e reforçadas:



  • A cultura de compliance é fundamental


Uma organização que não promove o respeito às regras como um valor fundamental vai observar permanentes discussões sobre o que é certo e o que é errado, sobre o que deve ser feito e o que deve ser proibido. Estas discussões vão sempre causar controvérsias. A FIA tem um longo histórico de decisões tomadas à margem das regras ou até mesmo nos bastidores. Isso enfraquece todas as regras vigentes e faz com que a motivação para qualquer decisão seja colocada em questão. O uso da chegada do novo presidente para sinalizar uma mudança nos rumos é muito pouco para um histórico tão complicado.


Se sua organização não tem um bom nível de maturidade na questão da cultura de compliance, este é o seu primeiro (e muito difícil) passo. 



  • As regras devem ser claras


As regras e procedimentos existem para que seja mais fácil para que as pessoas atuem corretamente. No caso das regras de segurança, para que as pessoas protejam-se e aos outros. Quando as regras são complexas, longas, confusas ou contraditórias, muita gente vai dizer que não tinha entendido (mesmo que na verdade apenas não quisesse aplicar a regra). Além de serem simples e claras, só devem regular o que é necessário. Deve haver ainda uma forma de corrigi-las, aprimorá-las e fazer sugestões. As pessoas que aplicam os procedimentos devem ser envolvidas e treinadas quando uma regra é criada ou modificada.


As regras da Fórmula 1 são de uma complexidade talvez só comparável com a legislação tributária brasileira. Além do regulamento técnico e do regulamento esportivo da categoria, há o regulamento da FIA e as instruções definidas corrida a corrida pelos diretores de prova. O resultado de tamanha complexidade é que existem especialistas nas equipes para controlar o regulamento. Então as regras não são mais uma questão dos pilotos, chefes de equipe e engenheiros, mas dos especialistas e dos advogados. Se seus procedimentos são do jurídico, da área de compliance ou da área de segurança, você tem um problema. Se você precisa de muitas regras ou procedimentos, separe as regras mandatórias das orientações e recomendações. E trate as violações de forma proporcional à importância da regra.



  • O desrespeito às regras não pode nunca ser tolerado (por ninguém)


Ao usar piercings em desrespeito à regra, Lewis Hamilton correu riscos muitas vezes. Isso reforça a percepção de que a regra não é importante e de não há problema em não respeitá-la, afinal nada aconteceu. É por isso que ele se sente perfeitamente seguro em continuar comportando-se da mesma maneira, e por isso a FIA viu-se na obrigação de fazer uma justificativa mais profunda e detalhada. 


Além de colocar a própria relevância da regra em questão, a tolerância tem como consequências o desrespeito de outras regras, que passarão a ser aplicadas segundo a opinião de cada um, de forma difusa. As pessoas que chegam ao ambiente terão mais dificuldade em diferenciar o que vale do que não vale, tornando a complexidade da regulamentação ainda maior.


E se o aplicador da regra é um líder ou uma pessoa de alta exposição, o efeito do exemplo é enorme, para o bem ou para o mal.



  • Os problemas de aplicação devem ser resolvidos. Já.


Uma regra ser aplicada incorretamente ou ser ignorada não é um fato inédito. A partir da identificação da situação, ocorre um interessante paradoxo temporal: mesmo que o fato tenha ocorrido por anos, resolver o problema é urgente. Se a regra não era mesmo importante, se não agregava valor, elimine. Se é importante, passe a aplicar imediatamente. Se há um tempo necessário até a adequação, determine este tempo antes de qualquer anúncio - em seguida defina uma data limite que você vai cumprir à risca, e até lá, pode ser uma boa idéia definir medidas temporárias complementares.


Fazer como fez a FIA vai gerar semanas e meses de debates em que a regra será julgada (e não o comportamento dos violadores).



  • Os stakeholders devem estar alinhados com a decisão da organização


Ter stakeholders discutindo publicamente suas discordâncias sobre uma regra está longe de ser uma boa idéia. Eles devem buscar alinhamento desde o primeiro momento, resolver eventuais divergências e usar o mesmo discurso. Como no caso de Lewis Hamilton, pode ser que a pessoa que terá mais voz não seja aquela que tem a autoridade ou o poder de decisão. Seria previsível que isso iria acontecer no caso do piercing, então conduzir o processo com o envolvimento da Associação dos Pilotos, neste caso, talvez fosse uma alternativa. Ou, no mínimo, sentir a temperatura da água antes de mergulhar. O comportamento dos outros stakeholders, como foi o caso da equipe de Lewis Hamilton neste caso, será o de ficar observando em silêncio até uma solução.


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Se você precisa mudar a cultura de compliance da sua empresa ou a aderência a procedimentos importantes como os de segurança, fale com a Zinneke. Nós indicaremos consultores para ajudá-lo nesta difícil jornada.


Eduardo Rocha já lidou com procedimentos, regras e violações em muitas situações diferentes. Acompanha Fórmula 1 há muito tempo, e acredita que o esporte nos ensina através de bons e maus exemplos. É fundador da Zinneke.



Photo by
Carl Jorgensen on Unsplash. Thanks!!


#compliance #ESG #regras #violações


Por Eduardo Valença 23 de junho de 2026
Durante o intervalo do jogo entre França e Iraque, ontem, foi disparado o protocolo de ação em caso de tempestades com descargas elétricas. O jogo foi interrompido e o público foi removido. Duas horas mais tarde o jogo foi retomado, quando o monitoramento indicou a ausência de descargas atmosféricas dentro de um raio de 13 km por pelo menos 30 min. Este protocolo não foi definido pela FIFA, o organizador do evento. Foi a aplicação da regulamentação existente nos Estados Unidos para eventos em espaços abertos. O protocolo é diferente do que ocorreria no Brasil, em situação similar. O que mais me chamou atenção não foi a interrupção do jogo em si, mas o fato de que diferentes países podem olhar para exatamente o mesmo risco e chegar a decisões diferentes. Isso acontece porque riscos não são apenas avaliados, eles também são descritos de formas diferentes. O caso ilustra três conceitos importantes de gestão de riscos, e como eles são aplicados na prática. Eles podem ser usados para gerenciar sua Cadeia de Suprimentos, mas você verá que eles se aplicam a virtualmente qualquer domínio. Antes dos três conceitos, vale observar que o próprio limiar de aceitação de riscos varia entre geografias e setores O limiar de aceitação de riscos é variável para diferentes indústrias e geografias Esta é talvez a observação mais evidente. Enquanto matavam o tempo, os narradores da transmissão mal podiam esconder o estranhamento com a prática, que é diferente do que se adota em outros países. Inclusive no Brasil, um dos países com maior incidência de descargas atmosféricas. Há um forte aspecto cultural envolvido. Uma série de acidentes com atletas, árbitros, treinadores e espectadores gerou nos anos 2000 a mudança do protocolo. Não foi a alta frequência de acidentes que motivou o debate, foi o reconhecimento de que os acidentes eram perfeitamente evitáveis. Uma leitura apressada poderia concluir que o Brasil, por não ter um protocolo tão rígido, teria um nível de aceitação de riscos menos rigoroso, em geral. Mas isso não é necessariamente verdadeiro: em outros aspectos, como a segurança bancária ou a defesa do consumidor, são as práticas brasileiras que soariam muito mais rígidas para um observador dos Estados Unidos. Estas diferenças aparecem o tempo todo na gestão de riscos: o mesmo tipo de desvio seria considerado de forma muito diferente na Aviação Comercial ou na Construção Civil. Por isso, é importante observar estas diferenças quando um negócio vai servir clientes em um novo país ou em um novo segmento. E agir de forma adequada, deixando de lado o estranhamento que pode tratar essas diferenças como “exageros”. Conceito 1: Ter um protocolo de ação bem definido reduz incertezas O protocolo adotado ontem é bastante claro. Há uma regra explícita (sem descargas elétricas num raio de 13 km por no mínimo 30 min). O risco subjacente não está mais em discussão: o que se discute é se houve ou não houve um raio no perímetro definido. A pergunta passa a ser “O indicador foi acionado?”. Não algo como “Será arriscado continuar com o jogo?”. Esse é um elemento chave da gestão de riscos: o gatilho e a ação são definidos previamente, e então aplicados com rigor. Não existe o “na hora, eu decido”. Isso reduz a variabilidade das decisões e a incerteza. Na gestão das cadeias de suprimentos, protocolos claros de gestão de risco são fundamentais. Há uma pressão quase irresistível por exceções e alguma tolerância. “O estoque já está abaixo do mínimo, mas a nova entrega deve chegar em alguns dias”. Ou “O fornecedor descumpriu a cláusula contratual crítica, mas é complicado substituí-lo”. Situações assim criam pelo menos dois riscos novos. O primeiro é a organização achar que o risco original está mitigado, quando não está. E o segundo é cultural: o que deveria ser uma regra vira uma sugestão. Conceito 2: As decisões e as escolhas devem ser feitas previamente Além de reduzir a variabilidade em comparação com decisões feitas no momento, as decisões tomadas de antemão definem o campo de atuação segura. Para operar de forma segura e operacional, um jato comercial depende de conhecimentos sofisticados de aerodinâmica, ciência dos materiais e termodinâmica. O conjunto dos parâmetros que devem ser mantidos constitui o que é conhecido como envelope de operação. Um piloto não precisa fazer os cálculos para saber se uma condição de voo é segura ou não: ele é treinado para entender como os sistemas do avião o mantém dentro do envelope, e o que fazer se um limite de segurança é atingido. A definição do envelope e das ações de contingência é uma atividade que deve ser feita previamente, considerando o peso das escolhas. Um evento da copa do mundo que dura o dobro do tempo certamente tem impactos negativos, que foram aceitos quando se definiu o protocolo. Posso imaginar que a definição dos 13 km e dos 30 min tenha sido alvo de muito debate, quando o protocolo foi definido. Eu me lembro da discussão que eu tive com um diretor comercial uma vez, em relação a riscos de atrasos de um navio. Ele dizia que aceitava o risco, mas na verdade ele acreditava que o atraso não aconteceria. São coisas muito diferentes. O que estava em discussão não era a existência do risco, mas o tamanho do risco residual que a empresa estava disposta a absorver. Aceitar um risco significa aceitar também suas consequências residuais, caso ele ocorra. Conceito 3: A forma como um risco é descrito afeta o critério de aceitação Talvez o conceito mais interessante que este caso ilustra seja o nível de aceitação de um risco como função do modo como o risco é descrito e enquadrado. Um evento durante uma tempestade pode ser definido de mais de uma forma. Uma forma é considerar o risco em termos de probabilidade e gravidade da ocorrência em si, o que talvez justifique os países que não interromperiam a partida. Mas nos Estados Unidos, um país com uma cultura muito mais agressiva de responsabilização civil e altas indenizações, o enquadramento pode ser diferente, algo como “Se houver um acidente, como justificar não ter parado a partida, se eu poderia detectar a tempestade chegando?”. Diferentes enquadramentos podem provocar decisões diferentes. Por exemplo, considere uma situação sistêmica como uma greve geral, um fator externo que impactasse as entregas para um cliente. É possível descrever o risco como “Força maior que impediu a entrega”. Mas também “Parada de um cliente causada por falha na nossa entrega”. Ou “Estrutura logística do concorrente seria menos afetada do que a nossa durante uma greve geral”. Ou ainda “Oportunidades de ganhar participação de mercado durante uma crise logística". Cada enquadramento define grau de aceitação e ações adequadas, diferentes em cada caso. E até tratar o evento como uma oportunidade potencial. Gestão de Riscos é uma questão estratégica Este caso ilustra um ponto frequentemente subestimado na gestão de fornecedores e na gestão de supply chain, e talvez até em outros temas como ESG e segurança do trabalho. A gestão de riscos tem um componente fortemente estratégico: como os riscos são definidos e como a organização se prepara e se posiciona em relação a eles. É uma atividade preventiva, que tem a enorme vantagem de poder ser feita sem a pressão de agir em reação a algo que já aconteceu e já causou consequências negativas. Você conhece os seus riscos e sabe o que faria sentido para mitigá-los, mas talvez ache que falta tempo para organizar tudo isso. Podemos ajudá-lo, e você vai ver que a confiança de ter uma gestão de riscos robusta vai liberar tempo para você cuidar dos imprevistos (sim, eles continuarão aparecendo).  Comece baixando os nossos guias e estudos de caso gratuitos e fale conosco.
Por Eduardo Valença 16 de junho de 2026
Numa tarde fria de maio em Porto Alegre, eu assistia a um seminário sobre o Futuro da Segurança do Trabalho. Naquela manhã, eu havia apresentado minhas ideias sobre integração de segurança e ESG nas decisões estratégicas e operacionais dos negócios. Talvez eu fosse o único profissional com background em compras na plateia, o que me colocaria em uma posição de observador privilegiado daquela tarde. No palco, uma mesa redonda em que gestores de segurança de várias empresas debatiam conceitos, metodologias e dificuldades de suas trajetórias de melhoria contínua da segurança do trabalho. Após os aplausos, quem levantou a mão para a primeira pergunta foi a Fernanda Mello, CEO de uma empresa gaúcha de serviços de manutenção, construção e projetos. Com um tom amigável e polido, Fernanda perguntou aos painelistas como eles viam um fato que ela observava: prestadores de serviços que colocam grande ênfase nos cuidados com segurança e qualidade acabam, muitas vezes, perdendo contratos para empresas com foco unicamente no preço. Segundo ela, isso acontece até mesmo em clientes para os quais já trabalham: novos entrantes de baixo preço são preferidos para projetos muito desejados, deixando de considerar a experiência de fornecedores que já atuam na organização. Nas respostas, os gestores de segurança reforçaram a importância que estes atributos qualitativos têm, para a segurança e para suas empresas, e em seguida falaram de vários problemas: compradores que acabam focando no preço “ por ser o que se espera deles ”, experiências boas ou ruins com um fornecedor que não são levadas em conta para outras partes da organização, falta de alinhamento entre compradores e responsáveis internos pelo serviço. São temas chave para compras, todos eles. Compradores bem formados sabem que a estratégia para serviços críticos não pode se resumir a uma mera comparação de uma tabela de preços. Esse é o caso de construção e manutenção industrial, mas há muitas categorias assim. As respostas dos gestores, precisas ou não, indicam que as organizações de compras estão falhando em endereçar corretamente estes desafios. Há três possibilidades, e nenhuma delas é positiva para compras. As áreas de compras não levam em conta nada além do preço ? Embora essa seja uma afirmação muito comum, isso não deveria acontecer. Se ainda acontece, é porque algo não está bem alinhado: seja na formação dos profissionais, seja no que a organização comunica como prioridade. Aspectos qualitativos podem ter alguma subjetividade em sua avaliação, mas estão diretamente relacionados ao valor do serviço, que precisa ser comparado junto com o preço. Não fazer essa avaliação é tão absurdo quanto considerar apenas o preço total, deixando de lado o preço unitário. A qualidade do serviço, por exemplo, impacta em outros custos internos como retrabalhos, atrasos e consumo adicional de materiais e outros serviços. E é até mais importante que o preço, em muitas situações. Há aspectos mais subjetivos, como a avaliação de riscos de um fornecedor. Aprovar um fornecedor envolve comparar aspectos presentes e concretos (como o preço) com questões futuras e incertas (como os riscos trabalhistas). É por isso que a avaliação de aspectos qualitativos e a experiência prática com o fornecedor são tão importantes, e fornecedores atuais devem passar por uma boa avaliação regular de desempenho. As outras áreas da empresa não conhecem os critérios que a área de compras adota? Se os compradores estão levando em conta critérios qualitativos, mas as áreas que usam os serviços não sabem quais são esses critérios, a situação talvez seja até mais grave . Pode haver algum desalinhamento nesses critérios, o que é esperado porque profissionais de compras tendem a ter um perfil mais generalista e menos técnico do que as áreas que efetivamente utilizam o que os fornecedores entregam. Mas o desconhecimento revela, principalmente, falta de diálogo entre compras e as diferentes áreas da empresa. Isso indica uma abordagem extremamente processual e operacional de compras, com baixo conteúdo estratégico e baixa aderência às necessidades do negócio. Ter compradores com formação suficiente para compreender bem essas necessidades, com perímetros em um tamanho que permita o adequado aprofundamento, e uma rotina de diálogo com os diferentes usuários internos são boas práticas sem as quais não existe bom desempenho em compras. Os fornecedores (principalmente os parceiros) recebem retorno sobre suas ofertas? A terceira e última possibilidade da situação levantada pela Fernanda é a ausência de clareza sobre as concorrências e seus resultados. Em um mundo em que RFP’s e RFQ’s vêm sendo progressivamente automatizadas, o processo de contratação de um fornecedor pode se tornar algo mais frio e distante, restrito ao que estiver escrito. Sem um processo de clarificação sobre os objetivos do contratante, um fornecedor não escolhido tem poucos elementos para identificar diferenças entre seu posicionamento e o que aquele cliente esperava. Afinal, cada fornecedor decide sua estratégia e suas ofertas com base em premissas distintas, que podem não estar alinhadas às prioridades do cliente para a categoria. Quando o fornecedor já atua na organização , o problema é ainda mais grave. Se você não dá a seu fornecedor os elementos para compreender os eixos de evolução dos serviços que ele presta, não pode esperar que os resultados da parceria avancem. Manter um diálogo produtivo com os fornecedores atuais assegura que as expectativas para o futuro estejam claras. Num cenário assim, o resultado de uma nova concorrência não deveria ser uma surpresa para ninguém. E agora? Que resposta podemos dar para a Fernanda? Eu não conhecia a Fernanda até ouvir a pergunta que ela fez naquela tarde fria. O que eu aprendi sobre a LES, sua empresa, em uma reportagem do Sebrae/RS, mostra que sua CEO participando de um Seminário sobre Segurança não é algo isolado. A empresa se posiciona com um foco em segurança e qualidade, tem iniciativas interessantes em inclusão e gestão de pessoas, e parece ser o tipo de fornecedor que o segmento precisa. Existem muitas outras empresas como a LES, em outros segmentos e outras regiões do Brasil. Eu conheço várias, e elas não deveriam ter dúvidas quanto à sua estratégia. Se sua área de compras ainda olha só para preço, não alinha objetivos e critérios de contratação com as outras áreas da empresa ou não se relaciona de forma estratégica com seus fornecedores, pode estar perdendo as oportunidades que estas empresas podem trazer para seu negócio. Descubra como fazer essa mudança. O relacionamento com fornecedores é um dos temas mais importantes na estratégia de compras, e você pode baixar no link do post, gratuitamente, o Mapa Zinneke da Gestão Estratégica de Fornecedores. E se você quiser aprofundar a conversa, podemos ajudá-lo a conquistar seu próximo sucesso.
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