Trump, BATNA e as Negociações Extremas

A posse de Donald Trump, suas primeiras medidas e as reações da comunidade internacional dominam o debate público.

Quem se lembrar de seu primeiro mandato vai reconhecer muitas situações similares ao que está acontecendo agora. Mas como os conceitos de negociação podem nos ajudar a entender as ações de Trump? Como enfrentar táticas extremas de negociação ?


Em seu livro “A Arte da Negociação”, as primeiras palavras de Donald Trump (ou do ghost-writer que mais tarde renegaria o livro) são:

 “Não faço pelo dinheiro. Tenho bastante, muito mais do que jamais precisarei. Faço pelo prazer de fazer. Negociar é minha forma de arte. Outras pessoas fazem pinturas lindas em uma tela ou escrevem poesias maravilhosas. Gosto de fazer negócios, de preferência, dos grandes. É minha forma de diversão.


No mundo das negociações, movimentos ousados e inesperados podem mudar completamente o jogo. Independentemente de opiniões políticas, é inegável que Trump aplica táticas extremas que desestabilizam o status quo, forçando adversários a renegociar em condições menos favoráveis.

Neste artigo, o foco não é a política nem as posições de Trump ou de seus oponentes, mas sim entender as teorias de negociação que ajudam a explicar essas dinâmicas. Será que podemos reagir a elas, como profissionais de compras e estrategistas, quando elas aparecem em situações empresariais?


A estratégia frequentemente usada por Trump pode ser classificada como uma forma extrema de anchoring (ancoragem) combinada com hardball tactics (táticas duras) e highball/lowballing (exagerar a oferta inicial). No contexto político, também é comparada ao conceito de "quebrar o tabuleiro", que força o reinício do jogo sob novas condições.


O Conceito de BATNA

Uma das bases da teoria de negociação é o conceito de BATNA (Best Alternative to a Negotiated Agreement, ou Melhor Alternativa a um Acordo Negociado). O BATNA representa a alternativa mais vantajosa que uma parte possui caso a negociação não chegue a um acordo. Quanto mais forte for seu BATNA, maior será seu poder na negociação. Se você não tiver um BATNA ou se ele for fraco, você poderá ser forçado a ceder.


As táticas extremas, como as que Trump costuma utilizar, muitas vezes visam enfraquecer o BATNA do oponente. Por exemplo, ao retirar os Estados Unidos de um acordo internacional ou ameaçar tarifas comerciais drásticas, Trump elimina o equilíbrio existente e cria um cenário em que os oponentes precisam negociar sob novos termos, com opções mais limitadas e sob controle dos Estados Unidos. No ambiente empresarial, um fornecedor ou cliente pode adotar estratégias similares, buscando pressionar a outra parte com demandas ou ameaças extremas.


A técnica funciona ?

A técnica acaba funcionando para os EUA porque eles possuem enorme peso político, econômico e militar, o que os coloca em uma posição onde os adversários geralmente preferem negociar a enfrentar retaliações. Além disso, a base de apoio de Trump interpreta sua agressividade como força e liderança, aumentando a tolerância interna e minimizando as consequências de danos à reputação internacional. Aliás, Trump provavelmente não espera que sua imagem, um dia, venha a ser de “bom moço”.


Em negociações empresariais, por outro lado, técnicas deste tipo são extremamente destruidoras e não há como ter resultado positivo com elas no médio e no longo prazo. As Empresas dependem de relacionamentos contínuos com clientes, fornecedores e parceiros. Quebrar o equilíbrio pode destruir a confiança e inviabilizar negócios futuros. E diferentemente de um político polarizador, empresas dependem de uma boa imagem para atrair investidores, clientes, empregados e parceiros.


É claro também que empresas geralmente não têm o mesmo nível de poder relativo que os EUA possuem no cenário global, e certamente seu poder oscila ao longo do tempo.


Isso não quer dizer que situações em que uma empresa tente usar táticas extremas sejam tão incomuns. A pergunta central para profissionais de compras e estrategistas é, então, como reagir a elas e retomar o controle?


Como Reagir a Táticas Extremas de Negociação


1. Reavalie o seu BATNA

Um erro comum é gastar tempo denunciando o comportamento do oponente agressivo ou as ações extremas, como se isso revertesse a situação. Isso demonstra fraqueza e dá ao agressor a sensação de controle.

Em vez disso, o foco deve ser em fortalecer o BATNA – ou seja, construir alternativas reais que reduzam a dependência da negociação. No caso dos oponentes de Trump, isso poderia significar formar coalizões de aliados, reforçar bases de apoio internas ou construir opções independentes da decisão dele.


Por exemplo, durante a primeira saída do Acordo de Paris, outros países poderiam ter avançado mais rapidamente na criação de um mercado global de carbono para aumentar a pressão sobre os EUA, tornando a saída menos vantajosa para Trump. Numa situação empresarial, se um fornecedor adotar táticas extremas (como ameaçar encerrar o fornecimento), a empresa deve explorar novos fornecedores ou estratégias de contingência, reduzindo a dependência de um único parceiro.


2. Ignore o Drama e Foque no Objetivo Final


Um dos maiores erros é entrar no jogo emocional do oponente. Táticas extremas muitas vezes são projetadas para gerar choque ou pânico, desviando o foco do objetivo principal.


Em vez disso, trate o movimento extremo como um ruído, e mantenha o foco nos resultados desejados. Não se desvie discutindo os méritos da posição do oponente; em vez disso, concentre-se em preparar sua próxima jogada. 

Manter a postura calma e objetiva reduz a eficácia da tática agressiva.


Por exemplo, diante de uma exigência irrealista de um cliente ou parceiro, não reaja com indignação, mas contra-ataque com propostas bem fundamentadas que expõem os riscos e custos do pedido inicial. Quando Trump anunciou a construção de um muro na fronteira com o México, falar sobre a inviabilidade econômica do plano era mais produtivo do que discutir as consequências que o muro teria.



3. Deixe a Tática Exposta, Sem Emocionalismo


Reagir emocionalmente ou fazer ataques pessoais ao negociador agressivo validam a estratégia dele.


De forma calma e objetiva, caracterize a tática como um movimento extremo e como uma mera tática de negociação. Não se desvie dos méritos da discussão original. Isso pode envolver mostrar ao público ou aos stakeholders como a posição radical é inviável ou prejudicial no longo prazo, e que portanto não deveria ser levada tão a sério


Quando Trump anunciou a saída do Acordo de Paris da primeira vez, os oponentes poderiam ter demonstrado que o impacto para empregos verdes e para a liderança global dos EUA seria maior que qualquer ganho econômico de curto prazo. No ambiente empresarial, se um fornecedor exigir um aumento de preços irrealista, demonstre como isso comprometeria o relacionamento de longo prazo ou inviabilizaria o negócio como um todo.


4. Contra-ataque com uma Contra-Âncora


É muito comum aceitar o novo ponto de partida imposto pelo agressor como nova base para a negociação.

Não aceite isso. Crie uma âncora igualmente forte em direção oposta, obrigando o oponente a reconsiderar sua posição. Encontre outros interesses da outra parte, e traga posições também extremas que ela não pretendia negociar. Por exemplo, traga outro produto que ele fornece para a discussão, ou traga questões de qualidade ou de serviço que ele não seria capaz de atender. Isso força o retorno a um tabuleiro mais razoável.


5. Use o Tempo como um Aliado


O erro comum é ficar paralisado ou tentar resolver tudo imediatamente, entrando no ritmo imposto pelo agressor. Táticas extremas geralmente criam um senso de urgência que favorece o agressor. 


Considere que o tempo pode ser uma arma poderosa contra táticas extremas. Mantenha a calma, atrase a negociação estrategicamente e espere até que o agressor revele fragilidades. Ao desacelerar o processo, você reduz a pressão e ganha tempo para explorar alternativas. Crie alternativas para que a pressão de tempo fique com a outra parte.

Durante as negociações comerciais de Trump, a China frequentemente adotou uma abordagem paciente, usando o tempo para minimizar impactos das tarifas e esperar uma administração menos hostil. Na vida empresarial, diante de uma exigência radical de um parceiro, a empresa pode protelar a decisão, adiando a decisão final ou pedindo mais informações. Isso aumenta a pressão sobre o agressor ao longo do tempo, especialmente se ele estiver contando com sua reação imediata.


Por Que Estas Reações São Cruciais?


Táticas extremas só funcionam quando o oponente não está preparado ou reage de forma previsível. Profissionais de compras e estrategistas empresariais precisam adotar uma mentalidade fria e analítica, investindo tempo na preparação e fortalecendo suas alternativas. Além disso, é essencial evitar entrar no ritmo emocional imposto pelo agressor, mantendo o foco em objetivos claros e de longo prazo.


Negociações são jogos de poder e percepção. Quando confrontado com táticas extremas, lembre-se de que a chave para o sucesso está em preparar-se adequadamente, manter a calma e não permitir que o oponente dite as regras do jogo. Ao fortalecer seu BATNA, evitar reações emocionais e empregar estratégias inteligentes, você não apenas neutraliza as táticas extremas, mas também cria condições para uma negociação mais equilibrada e eficaz.

As táticas de Negociação são apenas uma das ferramentas que os profissionais de compras devem conhecer e operar. Se você quer conhecer mais sobre Negociação ou outras ferramentas de compras, procure a Zinneke.


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Por Eduardo Valença 23 de junho de 2026
Durante o intervalo do jogo entre França e Iraque, ontem, foi disparado o protocolo de ação em caso de tempestades com descargas elétricas. O jogo foi interrompido e o público foi removido. Duas horas mais tarde o jogo foi retomado, quando o monitoramento indicou a ausência de descargas atmosféricas dentro de um raio de 13 km por pelo menos 30 min. Este protocolo não foi definido pela FIFA, o organizador do evento. Foi a aplicação da regulamentação existente nos Estados Unidos para eventos em espaços abertos. O protocolo é diferente do que ocorreria no Brasil, em situação similar. O que mais me chamou atenção não foi a interrupção do jogo em si, mas o fato de que diferentes países podem olhar para exatamente o mesmo risco e chegar a decisões diferentes. Isso acontece porque riscos não são apenas avaliados, eles também são descritos de formas diferentes. O caso ilustra três conceitos importantes de gestão de riscos, e como eles são aplicados na prática. Eles podem ser usados para gerenciar sua Cadeia de Suprimentos, mas você verá que eles se aplicam a virtualmente qualquer domínio. Antes dos três conceitos, vale observar que o próprio limiar de aceitação de riscos varia entre geografias e setores O limiar de aceitação de riscos é variável para diferentes indústrias e geografias Esta é talvez a observação mais evidente. Enquanto matavam o tempo, os narradores da transmissão mal podiam esconder o estranhamento com a prática, que é diferente do que se adota em outros países. Inclusive no Brasil, um dos países com maior incidência de descargas atmosféricas. Há um forte aspecto cultural envolvido. Uma série de acidentes com atletas, árbitros, treinadores e espectadores gerou nos anos 2000 a mudança do protocolo. Não foi a alta frequência de acidentes que motivou o debate, foi o reconhecimento de que os acidentes eram perfeitamente evitáveis. Uma leitura apressada poderia concluir que o Brasil, por não ter um protocolo tão rígido, teria um nível de aceitação de riscos menos rigoroso, em geral. Mas isso não é necessariamente verdadeiro: em outros aspectos, como a segurança bancária ou a defesa do consumidor, são as práticas brasileiras que soariam muito mais rígidas para um observador dos Estados Unidos. Estas diferenças aparecem o tempo todo na gestão de riscos: o mesmo tipo de desvio seria considerado de forma muito diferente na Aviação Comercial ou na Construção Civil. Por isso, é importante observar estas diferenças quando um negócio vai servir clientes em um novo país ou em um novo segmento. E agir de forma adequada, deixando de lado o estranhamento que pode tratar essas diferenças como “exageros”. Conceito 1: Ter um protocolo de ação bem definido reduz incertezas O protocolo adotado ontem é bastante claro. Há uma regra explícita (sem descargas elétricas num raio de 13 km por no mínimo 30 min). O risco subjacente não está mais em discussão: o que se discute é se houve ou não houve um raio no perímetro definido. A pergunta passa a ser “O indicador foi acionado?”. Não algo como “Será arriscado continuar com o jogo?”. Esse é um elemento chave da gestão de riscos: o gatilho e a ação são definidos previamente, e então aplicados com rigor. Não existe o “na hora, eu decido”. Isso reduz a variabilidade das decisões e a incerteza. Na gestão das cadeias de suprimentos, protocolos claros de gestão de risco são fundamentais. Há uma pressão quase irresistível por exceções e alguma tolerância. “O estoque já está abaixo do mínimo, mas a nova entrega deve chegar em alguns dias”. Ou “O fornecedor descumpriu a cláusula contratual crítica, mas é complicado substituí-lo”. Situações assim criam pelo menos dois riscos novos. O primeiro é a organização achar que o risco original está mitigado, quando não está. E o segundo é cultural: o que deveria ser uma regra vira uma sugestão. Conceito 2: As decisões e as escolhas devem ser feitas previamente Além de reduzir a variabilidade em comparação com decisões feitas no momento, as decisões tomadas de antemão definem o campo de atuação segura. Para operar de forma segura e operacional, um jato comercial depende de conhecimentos sofisticados de aerodinâmica, ciência dos materiais e termodinâmica. O conjunto dos parâmetros que devem ser mantidos constitui o que é conhecido como envelope de operação. Um piloto não precisa fazer os cálculos para saber se uma condição de voo é segura ou não: ele é treinado para entender como os sistemas do avião o mantém dentro do envelope, e o que fazer se um limite de segurança é atingido. A definição do envelope e das ações de contingência é uma atividade que deve ser feita previamente, considerando o peso das escolhas. Um evento da copa do mundo que dura o dobro do tempo certamente tem impactos negativos, que foram aceitos quando se definiu o protocolo. Posso imaginar que a definição dos 13 km e dos 30 min tenha sido alvo de muito debate, quando o protocolo foi definido. Eu me lembro da discussão que eu tive com um diretor comercial uma vez, em relação a riscos de atrasos de um navio. Ele dizia que aceitava o risco, mas na verdade ele acreditava que o atraso não aconteceria. São coisas muito diferentes. O que estava em discussão não era a existência do risco, mas o tamanho do risco residual que a empresa estava disposta a absorver. Aceitar um risco significa aceitar também suas consequências residuais, caso ele ocorra. Conceito 3: A forma como um risco é descrito afeta o critério de aceitação Talvez o conceito mais interessante que este caso ilustra seja o nível de aceitação de um risco como função do modo como o risco é descrito e enquadrado. Um evento durante uma tempestade pode ser definido de mais de uma forma. Uma forma é considerar o risco em termos de probabilidade e gravidade da ocorrência em si, o que talvez justifique os países que não interromperiam a partida. Mas nos Estados Unidos, um país com uma cultura muito mais agressiva de responsabilização civil e altas indenizações, o enquadramento pode ser diferente, algo como “Se houver um acidente, como justificar não ter parado a partida, se eu poderia detectar a tempestade chegando?”. Diferentes enquadramentos podem provocar decisões diferentes. Por exemplo, considere uma situação sistêmica como uma greve geral, um fator externo que impactasse as entregas para um cliente. É possível descrever o risco como “Força maior que impediu a entrega”. Mas também “Parada de um cliente causada por falha na nossa entrega”. Ou “Estrutura logística do concorrente seria menos afetada do que a nossa durante uma greve geral”. Ou ainda “Oportunidades de ganhar participação de mercado durante uma crise logística". Cada enquadramento define grau de aceitação e ações adequadas, diferentes em cada caso. E até tratar o evento como uma oportunidade potencial. Gestão de Riscos é uma questão estratégica Este caso ilustra um ponto frequentemente subestimado na gestão de fornecedores e na gestão de supply chain, e talvez até em outros temas como ESG e segurança do trabalho. A gestão de riscos tem um componente fortemente estratégico: como os riscos são definidos e como a organização se prepara e se posiciona em relação a eles. É uma atividade preventiva, que tem a enorme vantagem de poder ser feita sem a pressão de agir em reação a algo que já aconteceu e já causou consequências negativas. Você conhece os seus riscos e sabe o que faria sentido para mitigá-los, mas talvez ache que falta tempo para organizar tudo isso. Podemos ajudá-lo, e você vai ver que a confiança de ter uma gestão de riscos robusta vai liberar tempo para você cuidar dos imprevistos (sim, eles continuarão aparecendo).  Comece baixando os nossos guias e estudos de caso gratuitos e fale conosco.
Por Eduardo Valença 16 de junho de 2026
Numa tarde fria de maio em Porto Alegre, eu assistia a um seminário sobre o Futuro da Segurança do Trabalho. Naquela manhã, eu havia apresentado minhas ideias sobre integração de segurança e ESG nas decisões estratégicas e operacionais dos negócios. Talvez eu fosse o único profissional com background em compras na plateia, o que me colocaria em uma posição de observador privilegiado daquela tarde. No palco, uma mesa redonda em que gestores de segurança de várias empresas debatiam conceitos, metodologias e dificuldades de suas trajetórias de melhoria contínua da segurança do trabalho. Após os aplausos, quem levantou a mão para a primeira pergunta foi a Fernanda Mello, CEO de uma empresa gaúcha de serviços de manutenção, construção e projetos. Com um tom amigável e polido, Fernanda perguntou aos painelistas como eles viam um fato que ela observava: prestadores de serviços que colocam grande ênfase nos cuidados com segurança e qualidade acabam, muitas vezes, perdendo contratos para empresas com foco unicamente no preço. Segundo ela, isso acontece até mesmo em clientes para os quais já trabalham: novos entrantes de baixo preço são preferidos para projetos muito desejados, deixando de considerar a experiência de fornecedores que já atuam na organização. Nas respostas, os gestores de segurança reforçaram a importância que estes atributos qualitativos têm, para a segurança e para suas empresas, e em seguida falaram de vários problemas: compradores que acabam focando no preço “ por ser o que se espera deles ”, experiências boas ou ruins com um fornecedor que não são levadas em conta para outras partes da organização, falta de alinhamento entre compradores e responsáveis internos pelo serviço. São temas chave para compras, todos eles. Compradores bem formados sabem que a estratégia para serviços críticos não pode se resumir a uma mera comparação de uma tabela de preços. Esse é o caso de construção e manutenção industrial, mas há muitas categorias assim. As respostas dos gestores, precisas ou não, indicam que as organizações de compras estão falhando em endereçar corretamente estes desafios. Há três possibilidades, e nenhuma delas é positiva para compras. As áreas de compras não levam em conta nada além do preço ? Embora essa seja uma afirmação muito comum, isso não deveria acontecer. Se ainda acontece, é porque algo não está bem alinhado: seja na formação dos profissionais, seja no que a organização comunica como prioridade. Aspectos qualitativos podem ter alguma subjetividade em sua avaliação, mas estão diretamente relacionados ao valor do serviço, que precisa ser comparado junto com o preço. Não fazer essa avaliação é tão absurdo quanto considerar apenas o preço total, deixando de lado o preço unitário. A qualidade do serviço, por exemplo, impacta em outros custos internos como retrabalhos, atrasos e consumo adicional de materiais e outros serviços. E é até mais importante que o preço, em muitas situações. Há aspectos mais subjetivos, como a avaliação de riscos de um fornecedor. Aprovar um fornecedor envolve comparar aspectos presentes e concretos (como o preço) com questões futuras e incertas (como os riscos trabalhistas). É por isso que a avaliação de aspectos qualitativos e a experiência prática com o fornecedor são tão importantes, e fornecedores atuais devem passar por uma boa avaliação regular de desempenho. As outras áreas da empresa não conhecem os critérios que a área de compras adota? Se os compradores estão levando em conta critérios qualitativos, mas as áreas que usam os serviços não sabem quais são esses critérios, a situação talvez seja até mais grave . Pode haver algum desalinhamento nesses critérios, o que é esperado porque profissionais de compras tendem a ter um perfil mais generalista e menos técnico do que as áreas que efetivamente utilizam o que os fornecedores entregam. Mas o desconhecimento revela, principalmente, falta de diálogo entre compras e as diferentes áreas da empresa. Isso indica uma abordagem extremamente processual e operacional de compras, com baixo conteúdo estratégico e baixa aderência às necessidades do negócio. Ter compradores com formação suficiente para compreender bem essas necessidades, com perímetros em um tamanho que permita o adequado aprofundamento, e uma rotina de diálogo com os diferentes usuários internos são boas práticas sem as quais não existe bom desempenho em compras. Os fornecedores (principalmente os parceiros) recebem retorno sobre suas ofertas? A terceira e última possibilidade da situação levantada pela Fernanda é a ausência de clareza sobre as concorrências e seus resultados. Em um mundo em que RFP’s e RFQ’s vêm sendo progressivamente automatizadas, o processo de contratação de um fornecedor pode se tornar algo mais frio e distante, restrito ao que estiver escrito. Sem um processo de clarificação sobre os objetivos do contratante, um fornecedor não escolhido tem poucos elementos para identificar diferenças entre seu posicionamento e o que aquele cliente esperava. Afinal, cada fornecedor decide sua estratégia e suas ofertas com base em premissas distintas, que podem não estar alinhadas às prioridades do cliente para a categoria. Quando o fornecedor já atua na organização , o problema é ainda mais grave. Se você não dá a seu fornecedor os elementos para compreender os eixos de evolução dos serviços que ele presta, não pode esperar que os resultados da parceria avancem. Manter um diálogo produtivo com os fornecedores atuais assegura que as expectativas para o futuro estejam claras. Num cenário assim, o resultado de uma nova concorrência não deveria ser uma surpresa para ninguém. E agora? Que resposta podemos dar para a Fernanda? Eu não conhecia a Fernanda até ouvir a pergunta que ela fez naquela tarde fria. O que eu aprendi sobre a LES, sua empresa, em uma reportagem do Sebrae/RS, mostra que sua CEO participando de um Seminário sobre Segurança não é algo isolado. A empresa se posiciona com um foco em segurança e qualidade, tem iniciativas interessantes em inclusão e gestão de pessoas, e parece ser o tipo de fornecedor que o segmento precisa. Existem muitas outras empresas como a LES, em outros segmentos e outras regiões do Brasil. Eu conheço várias, e elas não deveriam ter dúvidas quanto à sua estratégia. Se sua área de compras ainda olha só para preço, não alinha objetivos e critérios de contratação com as outras áreas da empresa ou não se relaciona de forma estratégica com seus fornecedores, pode estar perdendo as oportunidades que estas empresas podem trazer para seu negócio. Descubra como fazer essa mudança. O relacionamento com fornecedores é um dos temas mais importantes na estratégia de compras, e você pode baixar no link do post, gratuitamente, o Mapa Zinneke da Gestão Estratégica de Fornecedores. E se você quiser aprofundar a conversa, podemos ajudá-lo a conquistar seu próximo sucesso.
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