O Serviço e o Trabalhador: Como Contratar?

O modelo de contratação de trabalhos não é uma questão de preferência: é função da realidade da relação.

O que é melhor? Um contrato CLT ou um contrato PJ? Não passa uma semana sem que eu veja alguém fazendo essa pergunta no LinkedIn, ou refletindo sobre as diferenças, vantagens e desvantagens de cada um deles.


Se você é um profissional gerenciando sua carreira, a questão é mais do que pertinente. Um contrato CLT significa ter acesso a alguns benefícios trabalhistas, a uma estabilidade na relação contratual, e muito particularmente, a uma estabilidade na demanda de trabalho e na remuneração. Um contrato PJ, por outro lado, implica em uma maior liberdade de horário e local de trabalho, numa necessidade de empreender e buscar clientes do serviço que você presta, na possibilidade de dedicar-se a diferentes projetos e interesses, e numa maior incerteza da remuneração, além de custos de administração e contabilidade. São dois mundos diferentes, e refletir sobre eles como duas alternativas de carreira faz todo o sentido. A vida profissional está cheia de escolhas: empresas públicas ou privadas, grandes ou pequenas, maduras ou startups, carreiras generalistas ou especializações, atividades técnicas ou gerenciais, e a lista continua.


A coisa muda de figura se a pergunta é feita por uma empresa. Para uma empresa, a escolha de um modelo ou de outro não se limita a uma questão de preferência ou de uma comparação de custos, pontos em que estão focadas muitas destas discussões no LinkedIn. Embora uma tarefa (ou um conjunto delas) possa fazer parte de uma descrição de cargo ou, alternativamente, de um escopo de prestação de serviços, a organização é completamente diferente num caso ou no outro. O objetivo deste artigo é debater estes aspectos do ponto de vista de uma empresa, falar dos riscos e de como administrá-los.



  • Sim, o mercado é muito mais fluido do que antes


Os negócios precisam adaptar-se e mudar de rumo muito mais rapidamente hoje do que nunca antes na história. As novas gerações têm preferido relações mais dinâmicas, e os mais experientes precisarão ter atividades produtivas por muito mais tempo que a duração de um emprego clássico. Nas empresas, as competências que devem ser internalizadas são cada vez mais estritas e focadas. 


Uma resposta a estas tendências tem sido a organização por projetos e missões, mais fluida e adaptável, para tudo que não for “
core” para o negócio. Se no passado as empresas contavam com departamentos para lidar com estas necessidades mais pontuais, atualmente estes recursos serão localizados e acionados “on-demand”. 


E se nos anos 90 a definição do que podia ser terceirizado ou não era muito mais clara, hoje estão muito mais difíceis de enxergar as fronteiras do que deve ser confiado a profissionais externos à empresa.



  • A Legislação trabalhista evoluiu, mas não estamos na Disneylândia


Esta mudança do mercado foi acompanhada pela evolução da legislação no mundo todo. Mesmo no Brasil, a reforma trabalhista de 2017 trouxe flexibilizações mais adaptadas às novas relações de trabalho. Mas está profundamente errado quem acha que são página virada as discussões em torno do que pode ou não ser feito nestas relações. Mesmo países em que a legislação é mais liberal definem claramente que é um delito contratar um trabalhador de forma ilegal, então é importante saber o que pode ou não pode ser feito.


Meus amigos advogados me ensinaram que se os requisitos do vínculo empregatício estiverem presentes na relação, as partes não podem optar por uma modalidade que não seja o contrato de trabalho, mesmo que um outro modelo pareça mais conveniente. Dito de outro modo, uma relação que não seja regida pela legislação trabalhista só pode existir se não estiverem presentes os requisitos do vínculo: Subordinação, Pessoalidade, Habitualidade e Onerosidade. Já voltaremos a estes requisitos.



  • Os últimos dois anos aceleraram a mudança


Eu me lembro das longas e complexas discussões sobre como organizar o trabalho remoto. Parecia interessante, mas como organizar o trabalho em equipe? E haveria riscos trabalhistas? Estas perguntas não tinham respostas claras e não avançávamos. Até que em Fevereiro de 2020, a coisa aconteceu de um dia para o outro, como resposta a uma das maiores crises de nossa geração. E eu duvido muito que alguém afirme que o evento não modificou em nada suas percepções sobre o trabalho, sobre a relação do trabalho com nossa vida, e até mesmo sobre a própria vida.


Uma evidência clara destas mudanças pode ser vista agora, em que o trabalho híbrido passa a ser visto como uma característica importante de atração de profissionais. E se a interação com colegas de outras áreas na hora do cafezinho ainda não tem um substituto à altura, a relação das pessoas com as empresas fica ainda mais baseada em missões, projetos e desafios, e muito menos ligada ao horário do expediente.


Em consequência disso, acreditamos que a balança vai pender cada vez mais para relações mais orientadas a projetos e contratos de prestação de serviços.



  • As duas relações são perfeitamente legais - o que é ilegal é usar o contrato errado


Contratar um serviço para resolver uma necessidade da sua empresa ou confiar a resolução dessa necessidade a um funcionário contratado de acordo com a CLT são duas soluções perfeitamente corretas. Mas é importante retornar aos requisitos do vínculo empregatício para concluir que é necessário redefinir a interação que a empresa terá com a pessoa ou equipe que resolverá o problema.


Começando com a
Onerosidade, que é a definição do pagamento que será feito pelo serviço. Enquanto a prestação de um serviço que pode ser regido por um contrato com pessoa jurídica é tipicamente definida pelos objetivos, pelo escopo do trabalho, a relação trabalhista é definida pelo tempo. Enquanto o pagamento pelos serviços prestados para uma PJ é função do critério de entrega do serviço definido em contrato, o pagamento de um empregado é devido pelo tempo à disposição da empresa. E o pagamento é devido mesmo que não exista nenhum trabalho a fazer.


A
Pessoalidade é a circunstância que associa o contrato a uma única pessoa, e em um contrato CLT o trabalhador não pode delegar para outra pessoa o trabalho para o qual foi contratado. Numa relação com uma PJ, por outro lado, embora possa existir a prescrição de que determinado nível hierárquico deva participar em determinada parte dos serviços, normalmente a PJ assume a responsabilidade pela entrega mesmo que para isso precise substituir seus próprios funcionários em caso de impedimento ou ausência.


A
Habitualidade é definida pela frequência em que a pessoa atua pela empresa. Um empregado estará à disposição da empresa pelo tempo que durar o relacionamento, de forma exclusiva. Por outro lado, uma pessoa jurídica pode até atender uma empresa por longos períodos, mas tipicamente atende vários clientes diferentes.


Finalmente, a
Subordinação. Enquanto em uma relação trabalhista a hierarquia é responsável por definir as tarefas que o empregado irá executar, os recursos e ferramentas para a sua execução, e os métodos que serão utilizados, no caso de uma pessoa jurídica estes elementos são responsabilidade da própria pessoa jurídica, e não da empresa tomadora. No caso de profissionais autônomos ou consultores, eles devem atuar com autonomia e responsabilizar-se por estes elementos auxiliares.


Portanto, tudo se resume à forma como o trabalho será executado e controlado. O profissional da PJ irá responder hierarquicamente a um gerente, irá cumprir horário de trabalho, irá dedicar-se à empresa cliente e será pago por semana ou por mês? Um contrato PJ para uma relação assim seria ilegal. 



  • Há uma estrutura de custos diferente - mas você não pode esquecer de nenhum custo


Para uma empresa, os custos de contratar uma empresa para a prestação de um serviço e os custos de contratar um empregado para realizá-las internamente são muito diferentes. E o fato de que uma contração de pessoa jurídica não agrega certos custos pode levar a uma conclusão de que contratar PJs é mais barato. Mas para fazer a comparação de laranjas com bananas, é preciso calcular corretamente o custo total.


Considere por exemplo os períodos de férias e os convênios médicos. Num contrato CLT, estes benefícios são custos diretos da empresa; num contrato PJ, naturalmente estão embutidos no preço do serviço. Os impostos são muito diferentes, também. 


Mas a maior dificuldade é comparar os custos de estrutura e a remuneração das horas indiretas. Um consultor autônomo, por exemplo, não vende a totalidade do seu tempo. Além de executar o trabalho de consultoria e ser remunerado por ele, há diversas outras atividades que ele precisa fazer, como prospectar negócios, atualizar-se tecnicamente e participar de seminários, cuidar da sua empresa (de atividades de marketing até pagamento de fornecedores). Isso significa que a base vendável é menor e precisa ser considerada no valor da hora teórica. Uma mesma remuneração anual será dividida por menos horas - a rigor, empregados via CLT também tem horas em que o trabalho não está sendo executado, mas a diferença fundamental é que neste caso, quem controla e otimiza estas horas é a empresa, não o empregado. Como regra geral, se a empresa está pagando a um autônomo um custo horário similar ao de um empregado contratado pela CLT, a remuneração líquida final do autônomo é muito mais baixa e potencialmente não é justa.



  • Os riscos: está tudo certo, até que dá tudo errado


Você precisa de um profissional que prefere um contrato PJ porque ele pretende atender outros clientes nas horas vagas. Ou você não tem autorização para criar um novo posto de trabalho, enquanto o valor do contrato está dentro da sua alçada. Ou, ainda, o profissional aceita uma remuneração bem mais baixa (que para ele é melhor do que renda nenhuma). Ele integra uma área com um time de 5 funcionários e 4 terceiros, que dividem o trabalho da área. A pessoa começa a trabalhar normalmente, participa das reuniões com os demais, está contente com o “líder”, e os resultados estão sendo alcançados. O que pode dar errado?


Ninguém briga antes que a briga comece. O profissional pode descobrir que a remuneração dos empregados internos e dos outros terceiros é muito superior à dele, todos fazendo a mesma atividade. Ou descobre que o trabalho exige muitas horas extras (que não são remuneradas) e o tempo para atender outros clientes desapareceu. E parte para a outra, e o projeto de que cuidava sofre uma interrupção.


Em vez de sair, o profissional pode continuar, e depois de algum tempo as insatisfações vão se acumulando. Ou, então, tem um problema grave de saúde e descobre-se desamparado. Ou, ainda, vem a falecer num acidente e quem está desamparada é a sua família.


A empresa é acionada na justiça. O gerente que fez a contratação já deixou a empresa. O jurídico calcula a provisão para o processo e o gerente atual, que nem conheceu a pessoa, não tem espaço no budget. Ele mostra o rombo para o diretor, recém nomeado, que conversa com o jurídico. Na reunião seguinte do comitê executivo, o diretor jurídico mostra o número de processos em andamento, com um impacto maior do que os processos de ex-funcionários, e o diretor de RH afirma que nunca tinha sido envolvido. O diretor de compras mostra o gasto total da empresa de terceirização e da plataforma de conexão com free-lancers. Um silêncio constrangedor domina a sala de reuniões, alguns olhando para o teto, outros para o presidente. Que decide: até o final da semana, todos os contratos deste tipo precisam ser encerrados. Do seu lado esquerdo, um diretor fala baixinho que isso vai atrasar o lançamento do novo produto. Novo silêncio constrangedor. Enquanto isso, um amigo da família faz um post no LinkedIn em que sua empresa é a vilã.



  • Seja amigo do seu advogado


 A história acima é infelizmente mais comum do que se supõe. E não aconteceria se a correta avaliação de riscos tivesse sido feita, se o advogado da empresa tivesse sido envolvido e a ele tivesse sido dito como o profissional iria prestar seu serviço para a empresa.


Procurar ajuda profissional em casos assim é muito importante, o que me lembra de alertar que este artigo não foi escrito por um advogado e portanto não deve ser tomado por uma recomendação jurídica. É apenas um alerta gerencial sobre alguns aspectos frequentemente esquecidos da legislação que afeta a gestão dos negócios.



  • Fale com a Zinneke


Se você precisa de um serviço especializado,
fale com a Zinneke. Nós desenvolvemos nosso processo de engajamento e de contratação após intenso alinhamento com um time especializado de advogados, e poderemos ajudá-lo a montar a organização segura, robusta e econômica de que você precisa para enfrentar seus desafios crescentes. Tudo começa com uma definição clara do serviço a ser realizado, e apoia-se em nossa rede de consultores independentes, que é diversa, qualificada e experiente.


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Eduardo Rocha acredita que a evolução do mercado de trabalho deve ter respostas éticas e responsáveis. O respeito às pessoas não pode ser apenas um discurso das empresas. Fundou a Zinneke com o propósito de facilitar a relação entre consultores independentes e empresas dentro dos melhores princípios de governança.



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#esg #mercadodetrabalho #contratação

Por Eduardo Valença 23 de junho de 2026
Durante o intervalo do jogo entre França e Iraque, ontem, foi disparado o protocolo de ação em caso de tempestades com descargas elétricas. O jogo foi interrompido e o público foi removido. Duas horas mais tarde o jogo foi retomado, quando o monitoramento indicou a ausência de descargas atmosféricas dentro de um raio de 13 km por pelo menos 30 min. Este protocolo não foi definido pela FIFA, o organizador do evento. Foi a aplicação da regulamentação existente nos Estados Unidos para eventos em espaços abertos. O protocolo é diferente do que ocorreria no Brasil, em situação similar. O que mais me chamou atenção não foi a interrupção do jogo em si, mas o fato de que diferentes países podem olhar para exatamente o mesmo risco e chegar a decisões diferentes. Isso acontece porque riscos não são apenas avaliados, eles também são descritos de formas diferentes. O caso ilustra três conceitos importantes de gestão de riscos, e como eles são aplicados na prática. Eles podem ser usados para gerenciar sua Cadeia de Suprimentos, mas você verá que eles se aplicam a virtualmente qualquer domínio. Antes dos três conceitos, vale observar que o próprio limiar de aceitação de riscos varia entre geografias e setores O limiar de aceitação de riscos é variável para diferentes indústrias e geografias Esta é talvez a observação mais evidente. Enquanto matavam o tempo, os narradores da transmissão mal podiam esconder o estranhamento com a prática, que é diferente do que se adota em outros países. Inclusive no Brasil, um dos países com maior incidência de descargas atmosféricas. Há um forte aspecto cultural envolvido. Uma série de acidentes com atletas, árbitros, treinadores e espectadores gerou nos anos 2000 a mudança do protocolo. Não foi a alta frequência de acidentes que motivou o debate, foi o reconhecimento de que os acidentes eram perfeitamente evitáveis. Uma leitura apressada poderia concluir que o Brasil, por não ter um protocolo tão rígido, teria um nível de aceitação de riscos menos rigoroso, em geral. Mas isso não é necessariamente verdadeiro: em outros aspectos, como a segurança bancária ou a defesa do consumidor, são as práticas brasileiras que soariam muito mais rígidas para um observador dos Estados Unidos. Estas diferenças aparecem o tempo todo na gestão de riscos: o mesmo tipo de desvio seria considerado de forma muito diferente na Aviação Comercial ou na Construção Civil. Por isso, é importante observar estas diferenças quando um negócio vai servir clientes em um novo país ou em um novo segmento. E agir de forma adequada, deixando de lado o estranhamento que pode tratar essas diferenças como “exageros”. Conceito 1: Ter um protocolo de ação bem definido reduz incertezas O protocolo adotado ontem é bastante claro. Há uma regra explícita (sem descargas elétricas num raio de 13 km por no mínimo 30 min). O risco subjacente não está mais em discussão: o que se discute é se houve ou não houve um raio no perímetro definido. A pergunta passa a ser “O indicador foi acionado?”. Não algo como “Será arriscado continuar com o jogo?”. Esse é um elemento chave da gestão de riscos: o gatilho e a ação são definidos previamente, e então aplicados com rigor. Não existe o “na hora, eu decido”. Isso reduz a variabilidade das decisões e a incerteza. Na gestão das cadeias de suprimentos, protocolos claros de gestão de risco são fundamentais. Há uma pressão quase irresistível por exceções e alguma tolerância. “O estoque já está abaixo do mínimo, mas a nova entrega deve chegar em alguns dias”. Ou “O fornecedor descumpriu a cláusula contratual crítica, mas é complicado substituí-lo”. Situações assim criam pelo menos dois riscos novos. O primeiro é a organização achar que o risco original está mitigado, quando não está. E o segundo é cultural: o que deveria ser uma regra vira uma sugestão. Conceito 2: As decisões e as escolhas devem ser feitas previamente Além de reduzir a variabilidade em comparação com decisões feitas no momento, as decisões tomadas de antemão definem o campo de atuação segura. Para operar de forma segura e operacional, um jato comercial depende de conhecimentos sofisticados de aerodinâmica, ciência dos materiais e termodinâmica. O conjunto dos parâmetros que devem ser mantidos constitui o que é conhecido como envelope de operação. Um piloto não precisa fazer os cálculos para saber se uma condição de voo é segura ou não: ele é treinado para entender como os sistemas do avião o mantém dentro do envelope, e o que fazer se um limite de segurança é atingido. A definição do envelope e das ações de contingência é uma atividade que deve ser feita previamente, considerando o peso das escolhas. Um evento da copa do mundo que dura o dobro do tempo certamente tem impactos negativos, que foram aceitos quando se definiu o protocolo. Posso imaginar que a definição dos 13 km e dos 30 min tenha sido alvo de muito debate, quando o protocolo foi definido. Eu me lembro da discussão que eu tive com um diretor comercial uma vez, em relação a riscos de atrasos de um navio. Ele dizia que aceitava o risco, mas na verdade ele acreditava que o atraso não aconteceria. São coisas muito diferentes. O que estava em discussão não era a existência do risco, mas o tamanho do risco residual que a empresa estava disposta a absorver. Aceitar um risco significa aceitar também suas consequências residuais, caso ele ocorra. Conceito 3: A forma como um risco é descrito afeta o critério de aceitação Talvez o conceito mais interessante que este caso ilustra seja o nível de aceitação de um risco como função do modo como o risco é descrito e enquadrado. Um evento durante uma tempestade pode ser definido de mais de uma forma. Uma forma é considerar o risco em termos de probabilidade e gravidade da ocorrência em si, o que talvez justifique os países que não interromperiam a partida. Mas nos Estados Unidos, um país com uma cultura muito mais agressiva de responsabilização civil e altas indenizações, o enquadramento pode ser diferente, algo como “Se houver um acidente, como justificar não ter parado a partida, se eu poderia detectar a tempestade chegando?”. Diferentes enquadramentos podem provocar decisões diferentes. Por exemplo, considere uma situação sistêmica como uma greve geral, um fator externo que impactasse as entregas para um cliente. É possível descrever o risco como “Força maior que impediu a entrega”. Mas também “Parada de um cliente causada por falha na nossa entrega”. Ou “Estrutura logística do concorrente seria menos afetada do que a nossa durante uma greve geral”. Ou ainda “Oportunidades de ganhar participação de mercado durante uma crise logística". Cada enquadramento define grau de aceitação e ações adequadas, diferentes em cada caso. E até tratar o evento como uma oportunidade potencial. Gestão de Riscos é uma questão estratégica Este caso ilustra um ponto frequentemente subestimado na gestão de fornecedores e na gestão de supply chain, e talvez até em outros temas como ESG e segurança do trabalho. A gestão de riscos tem um componente fortemente estratégico: como os riscos são definidos e como a organização se prepara e se posiciona em relação a eles. É uma atividade preventiva, que tem a enorme vantagem de poder ser feita sem a pressão de agir em reação a algo que já aconteceu e já causou consequências negativas. Você conhece os seus riscos e sabe o que faria sentido para mitigá-los, mas talvez ache que falta tempo para organizar tudo isso. Podemos ajudá-lo, e você vai ver que a confiança de ter uma gestão de riscos robusta vai liberar tempo para você cuidar dos imprevistos (sim, eles continuarão aparecendo).  Comece baixando os nossos guias e estudos de caso gratuitos e fale conosco.
Por Eduardo Valença 16 de junho de 2026
Numa tarde fria de maio em Porto Alegre, eu assistia a um seminário sobre o Futuro da Segurança do Trabalho. Naquela manhã, eu havia apresentado minhas ideias sobre integração de segurança e ESG nas decisões estratégicas e operacionais dos negócios. Talvez eu fosse o único profissional com background em compras na plateia, o que me colocaria em uma posição de observador privilegiado daquela tarde. No palco, uma mesa redonda em que gestores de segurança de várias empresas debatiam conceitos, metodologias e dificuldades de suas trajetórias de melhoria contínua da segurança do trabalho. Após os aplausos, quem levantou a mão para a primeira pergunta foi a Fernanda Mello, CEO de uma empresa gaúcha de serviços de manutenção, construção e projetos. Com um tom amigável e polido, Fernanda perguntou aos painelistas como eles viam um fato que ela observava: prestadores de serviços que colocam grande ênfase nos cuidados com segurança e qualidade acabam, muitas vezes, perdendo contratos para empresas com foco unicamente no preço. Segundo ela, isso acontece até mesmo em clientes para os quais já trabalham: novos entrantes de baixo preço são preferidos para projetos muito desejados, deixando de considerar a experiência de fornecedores que já atuam na organização. Nas respostas, os gestores de segurança reforçaram a importância que estes atributos qualitativos têm, para a segurança e para suas empresas, e em seguida falaram de vários problemas: compradores que acabam focando no preço “ por ser o que se espera deles ”, experiências boas ou ruins com um fornecedor que não são levadas em conta para outras partes da organização, falta de alinhamento entre compradores e responsáveis internos pelo serviço. São temas chave para compras, todos eles. Compradores bem formados sabem que a estratégia para serviços críticos não pode se resumir a uma mera comparação de uma tabela de preços. Esse é o caso de construção e manutenção industrial, mas há muitas categorias assim. As respostas dos gestores, precisas ou não, indicam que as organizações de compras estão falhando em endereçar corretamente estes desafios. Há três possibilidades, e nenhuma delas é positiva para compras. As áreas de compras não levam em conta nada além do preço ? Embora essa seja uma afirmação muito comum, isso não deveria acontecer. Se ainda acontece, é porque algo não está bem alinhado: seja na formação dos profissionais, seja no que a organização comunica como prioridade. Aspectos qualitativos podem ter alguma subjetividade em sua avaliação, mas estão diretamente relacionados ao valor do serviço, que precisa ser comparado junto com o preço. Não fazer essa avaliação é tão absurdo quanto considerar apenas o preço total, deixando de lado o preço unitário. A qualidade do serviço, por exemplo, impacta em outros custos internos como retrabalhos, atrasos e consumo adicional de materiais e outros serviços. E é até mais importante que o preço, em muitas situações. Há aspectos mais subjetivos, como a avaliação de riscos de um fornecedor. Aprovar um fornecedor envolve comparar aspectos presentes e concretos (como o preço) com questões futuras e incertas (como os riscos trabalhistas). É por isso que a avaliação de aspectos qualitativos e a experiência prática com o fornecedor são tão importantes, e fornecedores atuais devem passar por uma boa avaliação regular de desempenho. As outras áreas da empresa não conhecem os critérios que a área de compras adota? Se os compradores estão levando em conta critérios qualitativos, mas as áreas que usam os serviços não sabem quais são esses critérios, a situação talvez seja até mais grave . Pode haver algum desalinhamento nesses critérios, o que é esperado porque profissionais de compras tendem a ter um perfil mais generalista e menos técnico do que as áreas que efetivamente utilizam o que os fornecedores entregam. Mas o desconhecimento revela, principalmente, falta de diálogo entre compras e as diferentes áreas da empresa. Isso indica uma abordagem extremamente processual e operacional de compras, com baixo conteúdo estratégico e baixa aderência às necessidades do negócio. Ter compradores com formação suficiente para compreender bem essas necessidades, com perímetros em um tamanho que permita o adequado aprofundamento, e uma rotina de diálogo com os diferentes usuários internos são boas práticas sem as quais não existe bom desempenho em compras. Os fornecedores (principalmente os parceiros) recebem retorno sobre suas ofertas? A terceira e última possibilidade da situação levantada pela Fernanda é a ausência de clareza sobre as concorrências e seus resultados. Em um mundo em que RFP’s e RFQ’s vêm sendo progressivamente automatizadas, o processo de contratação de um fornecedor pode se tornar algo mais frio e distante, restrito ao que estiver escrito. Sem um processo de clarificação sobre os objetivos do contratante, um fornecedor não escolhido tem poucos elementos para identificar diferenças entre seu posicionamento e o que aquele cliente esperava. Afinal, cada fornecedor decide sua estratégia e suas ofertas com base em premissas distintas, que podem não estar alinhadas às prioridades do cliente para a categoria. Quando o fornecedor já atua na organização , o problema é ainda mais grave. Se você não dá a seu fornecedor os elementos para compreender os eixos de evolução dos serviços que ele presta, não pode esperar que os resultados da parceria avancem. Manter um diálogo produtivo com os fornecedores atuais assegura que as expectativas para o futuro estejam claras. Num cenário assim, o resultado de uma nova concorrência não deveria ser uma surpresa para ninguém. E agora? Que resposta podemos dar para a Fernanda? Eu não conhecia a Fernanda até ouvir a pergunta que ela fez naquela tarde fria. O que eu aprendi sobre a LES, sua empresa, em uma reportagem do Sebrae/RS, mostra que sua CEO participando de um Seminário sobre Segurança não é algo isolado. A empresa se posiciona com um foco em segurança e qualidade, tem iniciativas interessantes em inclusão e gestão de pessoas, e parece ser o tipo de fornecedor que o segmento precisa. Existem muitas outras empresas como a LES, em outros segmentos e outras regiões do Brasil. Eu conheço várias, e elas não deveriam ter dúvidas quanto à sua estratégia. Se sua área de compras ainda olha só para preço, não alinha objetivos e critérios de contratação com as outras áreas da empresa ou não se relaciona de forma estratégica com seus fornecedores, pode estar perdendo as oportunidades que estas empresas podem trazer para seu negócio. Descubra como fazer essa mudança. O relacionamento com fornecedores é um dos temas mais importantes na estratégia de compras, e você pode baixar no link do post, gratuitamente, o Mapa Zinneke da Gestão Estratégica de Fornecedores. E se você quiser aprofundar a conversa, podemos ajudá-lo a conquistar seu próximo sucesso.
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